Já é a quinta cidade que passo para uma estadia, e ainda é o quarto dia da semana. Bom, isso equivale a pouco mais de uma cidade por cerca de vinte e quatro horas. Tenho mais duas para passar até sábado. Já faço isso por pouco mais de três meses; sou uma viajante. Como não tenho muito tempo para conhecer o mundo, o mínimo que posso fazer é tentar. Pense no preço da gasolina. Aluguéis. Caronas. Barcos, trens, aviões. É a minha vida.
Me sinto como a dona do mundo.
As três partes de se ter uma doença terminal são:
1 – Ter conhecimento do problema. Chamo essa primeira de depressão. Podemos morrer a qualquer hora e vivemos bem com isso, mas quando sabemos exatamente quando vai acontecer nos sentimos péssimos, e até perceber de verdade que isso é o que é... Se torna mais um tempo.
2 – Aceitar o destino. Depois de passar uns belos dias tristes, você diz “é isso aí”, e simplesmente pára de se sentir mal para pensar no que você queria ter feito na vida antes de morrer. E sacrifica o que for para isso.
3 – Morrer.
Como já passei da parte 1 e ainda não cheguei à parte 3, quero conhecer o mundo. É clichê. Não tive alguma idéia melhor.
Então você pega todo o seu dinheiro, junta numa mala o que necessita diariamente, compra um monte de comida. Só para entrar em um carro e ir para lugar nenhum. “É isso aí.”
Tenho mais cerca de duas semanas para isso tudo acabar de vez. É cansativo. Pode parecer legal na primeira semana. Segunda. Terceira. Vira um ciclo. Você se cansa. Mas aí já não tem mais tempo para pensar em coisas novas a fazer.
Eu realmente poderia ter tido uma idéia melhor, não sou tão criativa. Suponho que viajo seis horas por dia. Vinte e quatro se tornam dezoito. Durmo em média oito. Me sobram dez. Essas coisas básicas, banheiro, banho, roupas, menos duas. Minha vida em si dura somente um terço do dia, oito. Conte isso na proporção de um ano, substitua minhas horas de viagem por suas horas de trabalho, e veja que sua vida dura apenas cerca de cento e vinte e um dias, e o resto são somente partículas de uma vida brilhantemente desperdiçada que você leva dois terços de seu tempo para construir. Sejamos otimistas; eu vou morrer e quero viver. Viajar, bingo.
Não tenho amigos. Quero dizer, não é a mesma coisa que qualquer ser humano comum. As pessoas que tenho em casa cidade são meus amigos. Nossa amizade profunda dura cerca de dezesseis horas, o tempo entre chegar a alguma cidade e ir embora. É só o tempo que temos.
Sábado pegarei um avião para Estocolmo, e devo estar lá domingo de manhã. Estou em Bathurst, Austrália. Amanhã, vou para Sydney pegar meu vôo. Nada planejado.
Em Estocolmo irei ao médico, espero que o melhor, para ver a evolução de minha doença. Ver a evolução de minha morte interna.
Um dia.
Dois dias.
Estocolmo.
Pego um táxi com meus poucos pertences pessoais e vou para a clínica. Vejo meu dinheiro escorrendo pelos meus dedos bem mais rápido que eu imaginava. Paguei o táxi. E agora não me resta nada.
Belo consultório com sua parede verde limão, quadros de moldura branca, poucas manchas, perfeitamente parecido com uma maçã. Fui até a mesa do café e peguei um copinho. Minha consulta demoraria pouco. Aliás, demorou o tempo do café, é a vida rápida em miniatura.
– Bom dia.
– Bom dia, Doutor...?
– Lewis. Michael Lewis. Carmen, certo?
– É, como na ópera... – sorri.
Ele sorria de volta. Eu não esperava bons resultados, pessoas sempre são legais quando se está realmente morrendo.
– Bom, Carmen, tenho boas notícias.
Ar.
– Sua doença não está mais em evolução. Não tenho explicações médicas para esse caso, mas...
Gostaria de ter inserido “falta de” no meu último pensamento. Eu não ouvia nada de tão perplexa, e ele continuava a dizer milhões de palavras que eu não conseguia ouvir.
–... e então, não há nada de errado com sua saúde.
O mínimo que consegui dizer foi – O quê?!
– Você não está feliz?
Claro. Viva, com saúde... E completamente só. Sem nada. Não tenho nem um amigo para comemorar a notícia e nem dinheiro para me divertir sozinha, ao menos. Pensei em milhões de lamentações para dizer, no entanto, só coloquei a mão na testa, abaixei os olhos e perguntei onde ficava o banheiro.
– É aquela porta ali.
Entrei.
As toalhas perfeitamente limpas, o espelho brilhando sob uma luminária vermelha. Tirei meu cinto e amarrei em um gancho. Era a minha forca.
Me olhei no espelho e me senti triste, um tanto fraca, mas fazer o que? A vida é muito mais medonha e difícil do que a morte, e eu já estava bem acostumada com a segunda opção.
As três partes de deixar de ter uma doença terminal são:
1 – Um súbito e pequeno flash de felicidade.
2 – Se você seguiu o segundo passo de ter a doença, agora é o momento de saber que você está ferrado e que isso é totalmente sua culpa. Sem dinheiro, sem pessoas, sem a sua vida e sem volta. E com a idéia de morrer completamente aceita.
3 – Suicídio.
Nunca mais sairia daquele banheiro. É a vida... “É isso aí.”
Me sinto como a dona do mundo.
As três partes de se ter uma doença terminal são:
1 – Ter conhecimento do problema. Chamo essa primeira de depressão. Podemos morrer a qualquer hora e vivemos bem com isso, mas quando sabemos exatamente quando vai acontecer nos sentimos péssimos, e até perceber de verdade que isso é o que é... Se torna mais um tempo.
2 – Aceitar o destino. Depois de passar uns belos dias tristes, você diz “é isso aí”, e simplesmente pára de se sentir mal para pensar no que você queria ter feito na vida antes de morrer. E sacrifica o que for para isso.
3 – Morrer.
Como já passei da parte 1 e ainda não cheguei à parte 3, quero conhecer o mundo. É clichê. Não tive alguma idéia melhor.
Então você pega todo o seu dinheiro, junta numa mala o que necessita diariamente, compra um monte de comida. Só para entrar em um carro e ir para lugar nenhum. “É isso aí.”
Tenho mais cerca de duas semanas para isso tudo acabar de vez. É cansativo. Pode parecer legal na primeira semana. Segunda. Terceira. Vira um ciclo. Você se cansa. Mas aí já não tem mais tempo para pensar em coisas novas a fazer.
Eu realmente poderia ter tido uma idéia melhor, não sou tão criativa. Suponho que viajo seis horas por dia. Vinte e quatro se tornam dezoito. Durmo em média oito. Me sobram dez. Essas coisas básicas, banheiro, banho, roupas, menos duas. Minha vida em si dura somente um terço do dia, oito. Conte isso na proporção de um ano, substitua minhas horas de viagem por suas horas de trabalho, e veja que sua vida dura apenas cerca de cento e vinte e um dias, e o resto são somente partículas de uma vida brilhantemente desperdiçada que você leva dois terços de seu tempo para construir. Sejamos otimistas; eu vou morrer e quero viver. Viajar, bingo.
Não tenho amigos. Quero dizer, não é a mesma coisa que qualquer ser humano comum. As pessoas que tenho em casa cidade são meus amigos. Nossa amizade profunda dura cerca de dezesseis horas, o tempo entre chegar a alguma cidade e ir embora. É só o tempo que temos.
Sábado pegarei um avião para Estocolmo, e devo estar lá domingo de manhã. Estou em Bathurst, Austrália. Amanhã, vou para Sydney pegar meu vôo. Nada planejado.
Em Estocolmo irei ao médico, espero que o melhor, para ver a evolução de minha doença. Ver a evolução de minha morte interna.
Um dia.
Dois dias.
Estocolmo.
Pego um táxi com meus poucos pertences pessoais e vou para a clínica. Vejo meu dinheiro escorrendo pelos meus dedos bem mais rápido que eu imaginava. Paguei o táxi. E agora não me resta nada.
Belo consultório com sua parede verde limão, quadros de moldura branca, poucas manchas, perfeitamente parecido com uma maçã. Fui até a mesa do café e peguei um copinho. Minha consulta demoraria pouco. Aliás, demorou o tempo do café, é a vida rápida em miniatura.
– Bom dia.
– Bom dia, Doutor...?
– Lewis. Michael Lewis. Carmen, certo?
– É, como na ópera... – sorri.
Ele sorria de volta. Eu não esperava bons resultados, pessoas sempre são legais quando se está realmente morrendo.
– Bom, Carmen, tenho boas notícias.
Ar.
– Sua doença não está mais em evolução. Não tenho explicações médicas para esse caso, mas...
Gostaria de ter inserido “falta de” no meu último pensamento. Eu não ouvia nada de tão perplexa, e ele continuava a dizer milhões de palavras que eu não conseguia ouvir.
–... e então, não há nada de errado com sua saúde.
O mínimo que consegui dizer foi – O quê?!
– Você não está feliz?
Claro. Viva, com saúde... E completamente só. Sem nada. Não tenho nem um amigo para comemorar a notícia e nem dinheiro para me divertir sozinha, ao menos. Pensei em milhões de lamentações para dizer, no entanto, só coloquei a mão na testa, abaixei os olhos e perguntei onde ficava o banheiro.
– É aquela porta ali.
Entrei.
As toalhas perfeitamente limpas, o espelho brilhando sob uma luminária vermelha. Tirei meu cinto e amarrei em um gancho. Era a minha forca.
Me olhei no espelho e me senti triste, um tanto fraca, mas fazer o que? A vida é muito mais medonha e difícil do que a morte, e eu já estava bem acostumada com a segunda opção.
As três partes de deixar de ter uma doença terminal são:
1 – Um súbito e pequeno flash de felicidade.
2 – Se você seguiu o segundo passo de ter a doença, agora é o momento de saber que você está ferrado e que isso é totalmente sua culpa. Sem dinheiro, sem pessoas, sem a sua vida e sem volta. E com a idéia de morrer completamente aceita.
3 – Suicídio.
Nunca mais sairia daquele banheiro. É a vida... “É isso aí.”
wow. vc tbm escreve bem!really
ResponderExcluirNossa eu adoro esse texto ! (y'
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